FESTA DA PADROEIRA:
Dia 03 de maio comemora-se a Santa Cruz, defensora e
protetora do povo cotegipano. Um dia em que o povo demonstra o seu
sentimento tradicional- religioso.
Num dia como o de Santa Cruz os cotegipanos davam um show
de receptividade para aqueles que chegavam dos inúmeros recantos.
Davam um show de disposição religiosa e roupas
bonitas.
Os
mercadores ambulantes chegavam dias antes com o objetivo de
faturarem nas vendas.
Os
músicos de Angical, Gula, Nisaldo, Zé Duque, Valdemar e Édio e os
visitantes também chegavam para darem alma ou vida à
festa.
Os
dias eram movimentados ao longo das novenas.
As
mulheres se exaltavam.
Grande era a expectativa e entusiasmo da mães, moças e
crianças pela causa e acontecimento que só falavam nos modelos dos
vestidos. Mariley e Mariazinha de Leônidas, ambas costureiras
famosas e cobiçadas na cidade, já estavam atarefadas com tantas
encomendas.
Em
casa nós ficávamos na expectativa também, contando os dias para
usarmos nossa roupas novas que às vezes mamãe mesma costurava ou
mandava costurar.
Nozinha não cansava de experimentar seu vestido de
vidrilhos e quase todos os dias lá estava ela nos perguntando se
estava bonita. Ceicinha experimentava o seu vestido branco de
cassa. Célia, a nossa irmã CDF, estava radiante com seu vestido de
crepe amarelo. Eu me sentia alegre com meu vestido vermelho de
crepe. Só que eu estava cobiçando as bolsinhas que papai tinha
comprado pra Jobinha e Lelê na Lapa do Bom Jesus. A nossa irmãzinha
caçula, Rivânia, com toda sua graciosidade e fofura, calçava suas
meias de bambolins, colocava os sapatos novos e saía correndo de
felicidade pra lá e pra cá na sala.
A
gente tinha sempre um motivo para ficar feliz e era mamãe quem
fazia de tudo para nos ver alegres.
Os
sapatos de Bebeca e Dudu eram novos. Edgar queria um novo também,
mas papai dizia:
- O
seu dá pra quebrar o galho, Edgar. No sete de Setembro eu compro um
novo para você marchar!
Mas era assim mesmo. Sempre tinha um de nós que estava
satisfeito ou não, em relação as roupas ou sapatos. Nós não
tínhamos o senso de escolha em si tratando de trajes. Dependíamos
de nossos pais. E a gente aceitava o que eles nos ofereciam, de
acordo com suas condições financeiras. Nossa mãe escolhia o que
mais lhe convinha para nós, em termos de modelo, cor, tecido. Às
vezes a gente chorava, reclamava, esperneava, querendo algo de
melhor e mais bonito, pois as nossas pretensões de vaidade já
estavam aflorando. Éramos reprimidas, não podíamos seguir as
tendências da moda, porque o poder aquisitivo de nossos pais era
baixíssimo... Também pudera! Doze filhos...
Ainda se preparando para os festejo de Santa Cruz nosso
pai pintava com uma tinta amarela a frente do nosso lar. E dentro
de casa um barrado de tinta dividia duas cores na
paredes.
Papai comprava foguete para soltar no dia da Missa. Mamãe
botava fogo no forno para assar os biscoitos. Papai matava o porco,
comprava umas galinhas...
Muitas visitas.
A
gente lavava a casa. Fazia uma faxina geral.
Num dia como de Santa Cruz para mim durava apenas uma
hora de tanta emoção e felicidade que eu sentia, pois o dia era
movimentado. Tinha muita gente em casa. Os nossos queridos primos
Aluísio, Alaide e Ariadne e seus irmãos menores vinham de Jupaguá e
era um prazer imenso quando eu os via.
Nós acordávamos bem cedo com boa disposição e com uma
sensacional euforia, pois tinha chegado o dia...
Ceicinha,
Célia Nereide e Rivânia
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Tomávamos café da manhã ouvíamos os comentários das
visitas e de nossos pais sobre a alvorada que estava emocionante e
também delicioso churrasco que foi servido na casa D. Altair, uma
grande personalidade possuidora de prendas apreciáveis como bordado
e cozi-mento dos doces mais gostosos da cidade. Sem falar em seu
Juvenal,
seu esposo, o nosso querido e talentoso professor
povo.
Mamãe começava a projetar o seu amor na gente, dando seus
últimos retoques nas roupas nos nossos cabelos. Mas, naquele dia
quem estava chamando a atenção era Nozinha, com seu vestido de
vidrilhos. E todas nós menores, já estávamos desejando um igual ao
dela.
Agora eu e meus irmãos já estávamos indo para missa. Eu
me encontrava com as minhas estimadas madrinhas Neiva e Idelci e
muitas pessoas que se dirigiam para a igreja.
Eu
sentia um cheiro de peta, ginete, bolo, de licor invadindo as ruas
em que eu passava num dia daqueles. Sentia um cheiro perfumado de
talco, de charisma, de mistral, de brilhantina com que as pessoas
lustravam seus cabelos ou suas barbas, sentia também um cheiro de
mais outros perfumes que minha percepção olfativa registrava, mas
desconhecia o nome.
Muita gente nas ruas, muitos cavalos amarrados nos postes
ou cercas.
As
pessoas soltavam fogos em veneração e respeito à Santa
Cruz.
A
religião católica era única e excepcional para nós, pois não
existia protestantismo. Nós fazíamos promessa de fidelidade a Santa
Cruz com todo fervor, cantando seu bendito.
Coro:
Bendito e louvado
seja
No céu a Divina
Luz
E nós também cá na
terra
Louvemos a Santa
Cruz...
Deus vos salva Santa
Cruz
Que está neste
terreno
Ela é filha de Deus
Padre
De meu Jesus
Nazareno.
Pios ela é nosso
bem
Que agora nos
conduz
Para nos poder
remir
Foi morrer na Santa
Cruz.
Os anjos no céu
cantando
Louvores ao Bom
Jesus
E nós também cá na
terra
Louvemos a Santa
Cruz.
Lá no monte do
Calvário
Morreu o meu Bom
Jesus
Foi dar o último
suspiro
Nos braços de Santa
Cruz.
Oh! Virgem da
Conceição
Maria Mãe de
Jesus
Rogai por nós que
cantamos
Louvores a Santa
Cruz.
Orago de
Cotegipe
Oh! Divina Santa
Cruz
Seja nossa
protetora
Nossa guia e nossa
luz.
Amém Rainha dos
Anjos
Amém do céu clara
cruz
Lançai-nos a vossa
bênção
Para sempre, Amém
Jesus!
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